Quando era criança assistia uns filmes em preto e branco, cheios de cenas com odaliscas movendo os quadris e os braços de uma forma leve, mas ao mesmo tempo com um autocontrole desafiador.
Minha atração por aquelas cenas era inevitável. Lá estava eu, com 09, 10 anos de idade, procurando endurecer sem perder a ternura, procurando o equilíbrio entre a leveza e a concentração.
Ali aprendi que ter molejo não é soltar os quadris descontroladamente, mas, ao contrário, é ter uma autoconsciência plena, ser dona absoluta do meu corpo e da minha mente.
O ballet clássico me fascinava, mas as danças orientais tinham um apelo especial: A conexão que faz você assistir algo e se reconhecer naquele contexto. É compreender que está predestinada e que um dia, mais cedo ou mais tarde, aquilo será parte importante da sua vida.
Consigo assistir uma peça de teatro, ou um filme no cinema, com paixão, emoção, empatia, mas sabendo qual o meu lugar, que é na plateia.
Com a dança é diferente! O palco é e sempre foi o meu lar...
Na tribo das danças orientais tive mais que colegas e professoras, tive musas inspiradoras que me passaram valores que carrego até hoje.
Leila Duarte, a primeira mestre. Inesquecível com sua capacidade de multiplicar o básico em infinitas possibilidades, com muita ética e honra. Foi ela que me ensinou que dança do ventre é uma expressão de arte, sem o apelo sexual que tentavam vender no início dos anos 90.
Catarina Hora era minha colega de turma, mas num nível infinitamente mais avançado que eu, simplesmente porque os movimentos fluíam do seu corpo como se ela fosse bailarina há muitas e muitas vidas. Ela veio a ser minha professora anos depois e sei que ainda tenho muito a aprender com ela.
Christiane (Nefis), com seu restaurante árabe, permitindo que eu experimentasse o prazer de dançar profissionalmente. Graças a ela tive que me virar para aprender a improvisar, a fazer maquiagem, usar as melhores roupas, escolher repertório para uma apresentação impactante, interagir com o público e principalmente descobrir meu próprio estilo. O Império de Nefis foi uma grande escola e só guardo boas lembranças, pois foi lá que descobri que não era apenas uma aluna. Eu era uma bailarina!
Foi no Império de Nefis que conheci a bailarina que mudou minha vida: Nailah Al Shamsa. A mulher mais vocacionada a dar aulas de danças orientais que já existiu na face da terra!
Sua sensibilidade e capacidade de descobrir e explorar os pontos fortes de cada uma das suas alunas faz de suas aulas uma fonte de inspiração inesgotável. Sua capacidade de doação é comparável aos mais dedicados sacerdotes. Ela gira com véus como se posse a brisa mais suave e refrescante que já senti. Ela é a delicadeza em movimento... Ela faz você não querer nada mais na vida, a não ser dançar com toda sua inspiração!
Foi Nailah que me ensinou que o que tratamos na dança se reflete na vida, desde nossa capacidade de concentração até questões comportamentais mais sérias. Ela notou que eu dançava com os dedos dos pés levantados, tinha dificuldade de manter os pés firmes no chão. Desde então sempre, sempre presto atenção para que apenas minha cabeça fique nas nuvens.
Dalilah foi minha professora em Brasília. Que pequena notável! Imaginem uma curadora alemã responsável por disciplinar meia dúzia de odaliscas? Seu perfeccionismo fez meus pés sangrar várias vezes, de tanto que reservava as salas da escola para ensaiar e ensaiar. E ela podia exigir, pois tinha e tem muito conhecimento para passar. É uma baixinha que vira gigante nos palcos.
Fiz aulas com os melhores do Brasil: Lulu Sabongi, Carla Silveira, Ju Marconato, Kahina (minha favorita entre as brasileiras), Mahayla, Marcio Mansur, Nu, Nuriel, Suheil, entre outros tantos nomes injustamente omitidos.
Fui mais longe e fiz aulas com os melhores do mundo: Saída (Argentina), Randa Kamel(Egito), Tito (Egito), Jillina (USA), Iara Kendrick (USA), entre outras grandes estrelas.
Tudo isso porque quando a gente ama sempre quer mais e mais...
Tive colegas que não tinham o menor gingado e que depois se transformaram em professoras da melhor qualidade. Outras que largaram amigos, família e foram viver profissionalmente da arte nos países árabes e na Europa. Tive amigas que só começaram a namorar depois de dois ou três anos de dança, talvez o tempo que elas precisaram para se descobrirem mulheres. Outras que terminaram namoros porque seus parceiros não apoiavam essa grande paixão.
A dança é feita na frente de espelhos gigantes. Você não tem como fugir de você mesma. São requisitos essenciais a identificação e autoconhecimento.
Ela desconecta sua mente de qualquer problema, pois um minuto de distração compromete todos os seus movimentos, o que permite que cada neurônio e cada poro trabalhem exclusivamente para você. Não consigo imaginar maior exercício de amor próprio!
A vida não é muito diferente de tudo isso. Concentre-se! Concentre-se em cada movimento e deixe os problemas longe dos seus pensamentos. Ponha música no lugar e seja feliz!