Que vergonha! Passei anos e anos da minha vida torcendo o bico e fazendo cara de nojinho para apresentações circenses.
Alardeava num orgulho ignorante o quanto detestava circo, detestava palhaços, detestava isso e aquilo.
Pra começo de conversar, que coisa mais antipática ficar alardeando desafetos e desgostos! Se não é para elogiar, cale a boca, criatura!
Na Escolinha do Professor Raimundo tinha um personagem chamado Joselino Barbacena. Sempre começava seus causos com o bordão: “Quando eu era criança pequena lá em Barbacena...”
Ando assim ultimamente. Cheia de recordações da minha infância, tão inusitada quanto minha fascinante e modesta personalidade.
E quando eu era criança pequena em Sergipe, sempre passava férias numa cidadezinha chamada Frei Paulo, onde até hoje vive grande parte da minha família.
Meu avô morava em frente à praça da feira, ou seja, na área de lazer mais disputada da cidade, onde se instalavam os parques e circos, por exemplo.
Como era só atravessar a rua, meus primos e eu tínhamos liberdade de ir todos os dias, sempre com o patrocínio do nosso amado Gogô (como chamávamos nosso avô).
Certo dia alguém anuncia a este senhor distinto da alta sociedade Frei Paulense: “Seu Antônio, sua neta está trabalhando no circo, o senhor sabia?”
Ele foi conferir com os próprios olhos, pois não era do tipo que se deixava levar pelas conversinhas típicas do interior.
Acho que lá pelos 30 minutos de espetáculo o mestre de cerimônias anuncia a próxima atração e lá estava eu, de saia rodada e blusa de babados, toda maquiada, no alto dos meus 6 ou 7 anos de idade, como a mais nova integrante da trupe: Uma animadíssima rumbeira!
Não lembro como cheguei ali, quem me arrumou, se eu ensaiava ou improvisava (mas pelo que me conheço, posso jurar que era sempre improviso). Sei desse fato muito mais pelo que ouço das minhas tias do que por recordações próprias (só coleciono fragmentos, como a sensação indescritível de dançar para uma platéia).
Meu avô não teve coragem de brigar comigo, tamanha a minha felicidade, mas deve ter passado uma bela de uma bronca nos artistas que me “contrataram”, pois minha carreira se encerrou ali.
Devo ter criado horror de circo quando comecei a freqüentá-los na capital. Circos maiores que faziam dos animais a sua principal atração. Nunca me senti confortável assistindo aquela manipulação de criaturas tão inocentes e indefesas.
Chega em Aracaju o Circo Portugal. Logo anuncio ao pai do meu pequeno Davi: “Isso é tarefa sua! Odeio circo!”
E hoje foi o dia do meu príncipe ser apresentado a essa “novidade”. Com dois anos e meio, seu mundo é permeado de “primeiras vezes”. Por amor, decidi testemunhar seus olhares e reações.
A melhor coisa que poderia ter feito por mim na vida!
Era um espetáculo lindo, puro e inocente, exatamente como o daquele circo que um dia me “contratou”. Com uma pequena diferença: Uma certa facilidade orçamentária, capaz de fazer a produção ficar bem mais caprichada, com roupas lindas e cheias de brilho e um elenco muito maior.
Era uma viagem no tempo... Não sou capaz de descrever o glamour das apresentações!
Papais, as mulheres eram LINDAS! Tinha uma certa dupla de mágicas mesmo... Dava gosto de ver! Porque afinal de contas, se a gente deixa nossas inseguranças de lado, dá pra entrar no clima e curtir a beleza de tudo e todos, não é mesmo?
Os palhaços fizeram minha barriga doer de tanto rir! Dieta? O que é isso? Coca-cola, pipoca e crepe no palito. Tudo sem a menor culpa!
Cadeiras e arquibancadas lotadas de famílias unidas, se entreolhando, compartilhando gargalhadas, suspiros e aplausos.
São momentos assim que tranqüilizam meu coração. Enfim estamos resgatando a simplicidade!