Ela recebeu um buquê de flores e uma garrafa de vinho de um cara que acabara de conhecer. Era o dia do seu aniversário. O primeiro que passaria longe da sua família. Havia um ar de comoção e autopiedade pela inusitada experiência.
Sem amigos, sem marido e sem família, tinha apenas aquela proposta de sair com um ilustre desconhecinho, de idade e tipo físico totalmente destoantes do seu histórico amoroso.
Recusou educadamente e foi para casa dormir. Acordou um ano mais velha, mas ainda mantendo esperanças e ilusões de uma jovem do interior. Ela definitivamente não tinha uma mentalidade cosmopolitana!
Sonhava com “amores da vida”, como se nela não coubessem centenas de grandes amores! A vida, afinal, pode ser do tamanho que a gente queira moldar! O amor da nossa vida é o amor da nossa vida naquele contexto específico.
Depois de uns dias permitiu-se conversar e assim conhecer outras pessoas. Fez uma triste constatação: As pessoas caem de amores por aqueles que não estão dispostos a se apaixonar!
Que atração doentia, afinal! Mas entre ser o sádico ou o masoquista, sempre preferiu ser a sádica( por excesso de amor próprio).
E foram relações diferentes: horas divertidas, horas cansativas, até os incontáveis “passa fora”, carregados de olhares de rancor e vingança dos seres abandonados. “Será que essas pragas têm validade?” Perguntava-se a estagiária da Bette Davis...
Ainda assim não estava disposta a manter algo por puro medo de não dar aos outros o que não queria receber. Talvez começando a aprender que há situações péssimas que sempre irão acontecer, à medida que a vida não pode se fazer só de SIM.
Decidiu aprender a dizer NÃO e assim encarar seus próprios sentimentos de rejeição.
Aceitou sair com o senhor das flores. Restaurante charmoso, vinho de primeira e alguns beijos no final. Todos regados pelas lágrimas de alguém procurando se conhecer melhor e percebendo que aquele não era o momento.
Ainda assim contou com a ternura do seu companheiro, que aceitou o desafio de conquistar, quando estava habituado a ser conquistado. E de repente ela não teve que passar por momentos de dúvidas: “Será que estamos namorando?”
Lá estavam eles de mãos dadas passeando pela alta sociedade, assistindo filmes de arte nas salas de cinema mais badaladas e jantando nos restaurantes mais vistos e comentados da cidade.
Ainda assim nossa heroína não teve forças para fazer parte daquele teatro afetivo...
Aceitou sua dor, agradeceu a compreensão do seu agora ex-par e foi lamber suas feridas.
Meses se passaram até que ela decidiu que as cicatrizes já poderiam ser expostas à luz do sol (e da lua).
Surpreendentemente o homem das flores aceitou que ela voltasse e encontrou, enfim, uma mulher disposta a viver uma relação adulta.
De menina frágil a mulher fatal. Descobriu-se poderosa e manipuladora, como toda mulher balzaquiana.
O romance com esse homem não durou muito tempo, apenas o suficiente para que ela fizesse jus à idade que ganhou meses atrás, no seu aniversário.